







Divulgação O grafite ´´Shirley`` foi feito por Ozi em 2007, na Brigadeiro Luís Antônio, movimentada avenida de SP
Martina Cavalcanti, da Redação
mmcavalcanti@band.com.br
Distantes das Assembleias Legislativas e do Congresso Nacional, pichadores e grafiteiros criam uma maneira alternativa de participação política ao se expressar em muros de metrópoles brasileiras, segundo especialistas. “A pichação é um meio de participação política novo”, afirmou Alexandre Pereira, antropólogo da USP (Universidade de São Paulo). “Não acredito que só haja política na disputa partidária ou de governo - as pessoas criam e inventam diferentes formas de participação ou de manifestação política.”
Para Pereira, os grafiteiros criam uma rede de encontros e de espaços para trocas, o que pode ser entendido como uma forma de organização política. “Se você conhece um pouco mais o modo como estes jovens se organizam na cidade para realizar suas pichações será fácil perceber que se está criando algo político em outro sentido e com todas as contradições que este político possa ter.”
A contradição pode estar na substituição da densidade do discurso pelo marketing político, para o professor de arquitetura da USP, Arthur Lara. “Creio que a política, no caso, seria de fama o mais rápido possível”, afirmou. Grafiteiro desde os anos 1970, Lara afirma que, na época da ditadura militar (1964-1985), os jovens pichavam “frases políticas e poéticas e clamavam por uma nova ordem social mais flexível” e que, atualmente, a expressão política das ruas foi prejudicada.
Na opinião do antropólogo, os pseudônimos deixados por grupos de pichadores da periferia de São Paulo são tão legítimos quanto a pichação feita por jovens de classe média como forma de contestação. “Se as pessoas não querem ver mais seu muro ou a paisagem urbana marcada pelos riscos da pichação, deveriam antes olhar para os riscos que estes jovens correm em seus bairros e pensar em como resolvê-los, em como criar alternativas de sociabilidade juvenil criativa”, afirmou.
Mesmo se a participação política tradicional aumentasse, pichação e grafite continuariam sendo exercidos, segundo os especialistas. “Querer acabar ou minimizar a pichação é um absurdo! Ela existe desde as cavernas, Pompéia e está em todas as cidades do planeta", afirmou Lara. "Creio que seja melhor entendê-la, estudá-la e, assim, é fácil ver que por trás de uma lata de spray, há uma pessoa, e que esta pode ser seu filho, seu amigo ou até você, quando a inércia das instituições afetar seu bairro, sua casa e destruir todas as suas possibilidades de participação.”
Pichação e Grafite
Enquanto a pichação usa apenas letras estilizadas e é considerado ilegal, o grafite também usa imagens e cores e não consta na atual legislação. Um Projeto de Lei diferencia as duas formas de expressão, caracterizando o grafite como arte e mantendo a ilegalidade da pichação. O projeto, que aguarda votação no Senado, levanta críticas entre pichadores e especialistas.